
Por Rodolfo Parisi
Fotos Orlando Pido Jr
Com o crescente aumento do preço de comercialização dos carros clássicos e muscle cars disponíveis no país, o sonho de comprar um automóvel desses diretamente da fonte, nos Estados Unidos, parece ficar cada vez mais próximo.
Segundo pesquisas entre colecionadores, fóruns de discussão especializados e customizadores, o preço de um Mustang Fastback, em estado de conservação no mínimo “surrado”, pode atingir facilmente valores como 50 ou 60 mil Reais. Por isso, a vida dos despachantes aduaneiros vem ficando cada vez mais atraente, dada à facilidade que eles encontram para trazer veículos de fora do país por preços, na maioria das vezes, semelhantes ao encontrado por aqui, mas com um detalhe: em ótimo estado de conservação.
Para descobrir como funciona o trâmite que permite a entrada de um carro no país, Rod & Custom entrevistou Orlando Pido Jr, proprietário da Fronteiras Comércio Exterior LTDA.
Durante duas horas conversando com o especialista em seu escritório na cidade de São Paulo (SP), descobrimos que trazer um carro de fora do país nem sempre parece ser um “bicho-de-setecabeças”, tendo pessoas especializadas na área. No entanto, a burocracia brasileira é tanta, que um carro trazido dos Estados Unidos, por exemplo, pode custar 128% do valor pago, além de cerca de U$3.500 com despesas no exterior e outros R$10.000 pagos para ser feito todo o desembaraço aduaneiro, despesas marítimas, portuárias, entre outros.
Trazendo carros novos ou clássicos desde o início da década de 1990, o despachante aduaneiro acredita que esse tipo de negócio irá crescer ainda mais nos próximos anos devido ao valor dos carros comercializados por aqui, e que por isso deve-se tomar o máximo de cuidado para não cair em mão erradas.
“Conheço casos de gente que perdeu todo o dinheiro para despachantes aduaneiros. O risco desse tipo de transação é grande pois você tem que ter paciência de esperar 60 dias para ter algo que você pagou antes”, comenta.
Rod & Custom: Quem é a Fronteiras e como ela começou?
Orlando Pido Jr: A Fronteiras é uma empresa especializada na importação e exportação de veículos, além de suas partes e peças. Atuamos no ramo de veículos novos e antigos desde 1990, oferecendo assessoria na escolha dos carros no exterior, transporte internacional, desembaraço aduaneiro nos portos e aeroportos do Brasil.
R&C: Quais os serviços prestados pela Fronteiras?
OP: Chamamos de serviço porta a porta, ou seja, assessoramos na compra do veículo no exterior. Nesse trâmite, nos responsabilizamos pela retirada do veículo no país de origem, preparamos a documentação para embarque no navio, realizamos todo o transporte marítimo internacional, legalizamos o carro no Brasil e entregamos em qualquer parte do país, licenciado.
Resumindo, é só escolher o carro em qualquer lugar e entregaremos na sua porta com toda a documentação necessária.
R&C: E por que a especialização por importação de carros antigos e Hot Rods?
OP: Na realidade sempre fizemos importação de veículos novos, que não são importados pelos concessionários. No entanto, há três anos aumentou a procura de pessoas interessadas em adquirir veículos antigos no exterior e aí iniciamos esse trabalho.
R&C: De quais formas são trazidos os carros de fora do país? O dono escolhe e contrata seus serviços ou são vocês quem prestam essa assessoria?
OP: Na realidade existem algumas maneiras de comprar. Na maioria das vezes, o cliente fornece informações de qual carro gostaria de obter, então procuramos em leilões, eventos, feiras... Assim que o veículo é localizado, enviamos fotos por e-mail (cerca de 50) com laudo completo dos detalhes do carro. Mediante autorização do comprador, fechamos o negócio. Na realidade atuamos como representantes legais. Outra maneira de adquirir automóveis fora do país é através de pesquisas em sites de leilão como o www.ebay.com. Também trabalhamos para colecionadores que preferem viajar, localizar, vistoriar o carro e comprar.
R&C: É possível trazer veículos de qualquer parte do planeta? Como são os entraves burocráticos de cada país?
OP: A lei de entrada de automóveis (portaria 370 do Ministério da Indústria e Comércio) foi estabelecida exclusivamente para o nosso país. Portanto, localizando um carro em qualquer parte do planeta, é possível importá-lo desde que seja destinado à coleção e tenha acima de 30 anos.
R&C: E como funciona essa portaria 370 do Ministério da Indústria e Comércio?
OP: A portaria diz que o veículo tem de ter mais do que 30 anos e sua importação deve ser destinada a coleção. Este é o texto reproduzido na íntegra: “Podem ser importados veículos com trinta ou mais anos de fabricação, desde que para fins culturais e de coleção”, ou seja, costumo dizer que carro antigo não é carro usado, logo, seguindo essas normas não há problemas para o comprador.
R&C: Como é feito o transporte para cá?
OP: O transporte mais barato é o marítimo, mas os carros também podem vir através de transporte aéreo, o que fica totalmente inviável na minha opinião, devido ao alto custo cobrado pelas empresas de aviação. Para os países vizinhos do Mercosul, é possível utilizar o transporte rodoviário (caminhão) sem quaisquer problemas.
R&C: Leva quanto tempo, em média, para termos um carro em mãos?
OP: Costumo dizer que após o carro ser comprado oficialmente, o prazo é de no máximo 60 dias.
R&C: O processo de compra e retirada do carro nos Estados Unidos, principal foco de procura dos veículos antigos, é burocrático?
OP: Não, o processo de compra é simples e rápido. Após a negociação, o proprietário tira a placa do carro que pertence a ele, assina o documento e você é obrigado a levar o automóvel com um guincho, pois rodar sem placa acaba dando em prisão.
R&C: Uma vez dentro do mar, algum cuidado deve ser tomado? Por exemplo, existem casos de roubo de carga?
OP: O transporte marítimo é muito seguro. A preocupação deve ser no embarque, quando o carro está sendo colocado no contêiner e o carro amarrado ao chão (vide fotos). Não existe um grande risco de roubo durante a viagem. São raros os casos, mas já aconteceu conosco de um contêiner cair e amassar toda a lateral do veículo. Já vi também casos em que o contêiner sofreu avarias na descarga do navio. Portanto, sugiro a contratação de um seguro.
R&C: Quantos carros já foram trazidos para cá desde que a portaria 370 foi implementada?
OP: Li uma entrevista em que o Presidente da FBVA (Federação Brasileira de Veículos Antigos) informou que até o momento foram cerca de 400 carros. Eu mesmo já desembaracei cerca de 88 deles.
R&C: É possível fazer todo o processo de importação sem a contratação dos despachantes aduaneiros?
OP: Considero impossível importar um carro sem a atuação de um despachante aduaneiro, pois até mesmo o despachante tem que ser especializado em importação de carros, caso contrário poderá trazer graves problemas para o comprador, devido à burocracia do processo.
R&C: A importação de automóveis antigos e Hot Rods pode ser feita por pessoa jurídica ou somente por pessoa física?
OP: Apesar de a lei não citar esse assunto, o DECEX (Departamento de Operações de Comércio Exterior) determinou que somente poderão ser promovidas importações por pessoa física, pois eles consideram que pessoa jurídica não é colecionador.
R&C: Em alguns sites norte-americanos, são encontradas verdadeiras relíquias por preços excelentes. Você que vive trazendo carros de lá e já viu muito “picareta”, como faz para separar o “joio do trigo”?
OP: Realmente esse é um problema mundial. Existem pessoas mal intencionadas no mundo todo. O que eu posso dizer é que pelo menos nos EUA, Europa e Canadá, é mais difícil sofrer dores de cabeça. O que costumo sugerir é que, se a pessoa vai comprar pela internet, solicite ao vendedor
muitas fotos e principalmente os detalhes negativos do carro em questão, para evitar surpresas.
R&C: Quando o carro chega no país, em qual porto ele desembarca?
OP: Você pode utilizar qualquer porto no Brasil. A preocupação deve ser com a distância entre o porto e o local de entrega, para oferecer uma melhor logística ao proprietário e à empresa contratada para o serviço.
R&C: A partir daí, qual o processo burocrático para se retirar um carro do porto? Sabe-se de muitos automóveis que não passam do porto para a rua, e o proprietário acaba perdendo o dinheiro. Como evitar isso?
OP: Na realidade o processo não é tão burocrático, basta ter um profissional especializado na importação de antigos. Sugiro que se questione o despachante aduaneiro para que ele apresente os últimos processos desembaraçados, fotos dos veículos, despesas e o tempo gasto desde o embarque até a efetiva entrega.
R&C: Depois disso, com o carro em mãos, como deve ser o processo de legalização do automóvel para rodar em terras brasileiras?
OP: Após os impostos pagos e o carro desembaraçado, a Receita Federal só autoriza a retirada com um pré-cadastro no Renavam. Esse cadastro será posteriormente complementado pelo Denatran em Brasília, onde será habilitado o Renavam para o licenciamento.
R&C: Por fim, no caso dos Hot Rods, veículos normalmente modificados, existe algum outro processo que deve ser feito para evitar problemas com as autoridades?
OP: Realmente o Hot Rod é um carro modificado e possui muitas peças novas, perdendo assim o conceito da lei de carros “originais” e pode acabar dando problema. Sugiro fazer a importação do veículo antigo desejado e preparar o carro no Brasil, onde existem muitas empresas especializadas nesse tipo de transformação.
R&C: Uma última pergunta e que irá te deixar contra a parede. É viável trazer um carro do exterior ou compensa pagar o preço alto pedido por aqui e depois gastar um pouco mais com restauração? OP: Considero essa decisão muito particular. Como em toda negociação devemos levar em consideração o perfil da pessoa. Existem riscos calculados como: comprar um carro com defeito, ferrugem, problemas mecânicos... Contratar, por exemplo, um despachante aduaneiro sem experiência no ramo de veículos pode acarretar atrasos devido a greves que freqüentemente acontecem nos portos e muitas outras coisas. Portanto, se o interessado/comprador/ importador conseguir administrar esses fatores, com certeza será mais vantajoso trazer o carro de fora do país. Para os mais conservadores, sugiro realizar seu sonho no Brasil freqüentando encontros de antigos, lojas especializadas, eventos e feiras que estão melhorando dia após dia.
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